Por que Deus permite o sofrimento?
Se você chegou até aqui, provavelmente foi uma dor de verdade que trouxe essa pergunta — "por quê?". É quase sempre a primeira coisa que perguntamos quando sofremos, às vezes gritando pra Deus, às vezes só em silêncio. Isso não é falta de fé. É a fé tentando encontrar chão.
Antes de qualquer resposta: se hoje você sente dúvida, raiva ou um luto que não fecha, isso não te afasta de Deus. Buscar ajuda — de um médico, de um psicólogo, de alguém que escute — também faz parte do caminho, não é o oposto da fé.
A resposta que a fé oferece não é uma explicação de longe — é uma presença. Cristo não observou o nosso sofrimento à distância: ele entrou nele. Ele sofreu na cruz, e é a partir desse sofrimento que Deus responde à nossa pergunta, mostrando que o próprio Cristo compartilha a nossa dor.
Deus, em sua natureza divina, não pode padecer (Spe salvi, 39) — mas o Filho de Deus, ao se fazer homem, permanecendo o mesmo e único Filho, assumiu em sua humanidade a capacidade real de sofrer. Ao assumir a carne e o sangue, ele entrou no sofrimento humano de verdade, e é isso que faz da consolação dele algo real, não teórico, para qualquer dor que você esteja carregando.
Quando alguém entrega o próprio sofrimento a Deus — "como hóstia viva, santa e agradável" (Rm 12,1) — alguma coisa muda por dentro: não porque a dor em si tenha valor, mas porque, unida ao sacrifício de Cristo e oferecida com amor, ela deixa de ser só perda. Esse é o "Evangelho do sofrimento": não a dor sozinha, mas a dor entregue — que pode se tornar caminho de solidariedade com quem sofre ao seu lado, e até um jeito de participar, de verdade, do próprio sofrimento de Cristo.
Isso não muda o fato de que dói. Mas talvez mude o que você faz com essa dor. Ela não é um castigo arbitrário — parte do que sofremos vem do mau uso da liberdade humana, e parte vem de um mundo ainda não plenamente curado —, mas em nenhum dos dois casos você está sozinho nisso.
Se a dor ainda está aí, tudo bem. Ela pode conviver com um pouco de esperança ao mesmo tempo.
Consultei: Salvifici Doloris (11 de fevereiro de 1984, Papa São João Paulo II); Spe salvi (30 de novembro de 2007, Papa Bento XVI); Angelus, 11 de fevereiro de 1979 (Papa São João Paulo II)